Foto Adriano Diogo
Buscar:
redessociaisBlogOrkutFacebookTwitterredes2

Noticias

Data - 27.03.2013

Comissões da verdade debatem violência da ditadura contra as mulheres

Em audiência pública, Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, é homenageada.

 

As roupas eram arrancadas. Nuas na frente de muitos homens, eram colocadas no pau-de-arara e na cadeira do dragão. Os choques eram aplicados nos seios, vagina, ânus. Os mamilos eram apalpados, queimados com cigarro. As mulheres eram xingadas de puta e humilhadas quando expeliam sangue, urina, fezes. Suas vaginas, penetradas por mãos e pênis dos torturadores, que também masturbavam-se e jogavam o sêmem nos corpos subjugados. Seus filhos nasceram nos centros de tortura, foram sequestrados, assistiram e sofreram violências.

Maria Amélia estava amarrada na cadeira do dragão, quando o torturador Lourival Gaeta, o “Mangabeira” começou a masturbar-se na sua frente. Ao gozar, jogou o sêmem em cima de seu corpo. “Não gosto de falar sobre isso, mas sei da importância de tratar desse assunto, da desigualdade entre homens e mulheres na hora da tortura. Eles usaram da desigualdade para nos torturar mais”, disse, sob forte emoção, Maria Amélia de Almeida Teles. Ela relatou o abuso sexual que sofreu na abertura da audiência pública “Verdade e gênero- a violência da ditadura contra as mulheres”, ocorrida na segunda-feira, 25, organizada pela Comissão Nacional da Verdade e Comissão Estadual da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva”.

Leia Também:
Mulheres torturadas pela ditadura depõem na Comissão da Verdade de SP
Mães e guerreiras que enfrentaram à ditadura
Comissões da Verdade, Nacional e de São Paulo, realizam debate sobre verdade e gênero

A audiência, ocorrida na Assembleia Legislativa de São Paulo foi presidida pelo deputado Adriano Diogo, presidente da Comissão Estadual da Verdade. Também participaram da audiência os membros da Comissão Nacional da Verdade, Paulo Sérgio Pinheiro, Rosa Maria Cardoso e Maria Rita Kehl. A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Menicucci de Oliveira também esteve presente. Na ocasião, houve uma homenagem à ex-presa política Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, centro de tortura e desaparecimento localizado em Petrópolis, Rio de Janeiro e uma palestra com a filósofa e especialista em gênero Ivone Gebara.

“Faz 40 anos que esses fatos aconteceram e eu ainda tenho dificuldade de falar sobre eles”, relatou Amelinha, assessora da Comissão da Verdade de SP e representante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.  Ela foi presa, em 28 de dezembro de 1972 e torturada com sua família na Operação Bandeirantes (Oban).

Omissão

Segundo Amelinha, as mulheres sempre trataram a violência sexual sofrida nos órgãos de repressão de forma secundária. “Nós mesmas omitimos esses fatos, priorizando falar sobre a violência contra as crianças, os assassinatos e torturas”, apontou.

A ex-presa política testemunhou o assassinato do militante Carlos Nicolau Danielli e o desaparecimento de Edgar de Aquino Duarte. Sua irmã, Crimeia de Almeida, foi presa e torturada grávida. Seu marido, Cesar, entrou em coma em decorrência das sevícias. Seus filhos [Edson e Janaína] foram sequestrados e levados para a sala de torturas da Oban. “Meus filhos me viram assim, torturada, urinada, com fezes. E perguntaram: ‘mãe, por que você está azul e o pai verde?’. Ele estava verde porque estava saindo do estado de coma. E eu estava azul porque estava cheia de hematomas”, recorda Amelinha. “Eles usaram a maternidade contra nós”.

Amelinha Teles destacou que na resolução que criou a Comissão Nacional da Verdade está previsto o esclarecimento de fatos e circunstâncias de torturas e desaparecimentos forçados. “E entre esses, há 50 mulheres”, destacou.

Casa da Morte

A ministra Eleonora Menicucci de Oliveira, que também foi presa política destacou que é “preciso lembrar para não esquecer e não repetir. É preciso lembrar para avançar”. Para ela, “essas mulheres precisam ser celebradas e lembradas por essa luta”. Quando foi presa, em 1971, Eleonora tinha uma filha, Maria, de 1 ano e 10 meses.

Ao homenagear Inês Etienne, que não pôde estar presente por problemas de saúde, Eleonora lembrou que a amiga foi e é uma pessoa muito generosa. “Ela é a única sobrevivente da Casa da Morte e responsável pelas informações que se tem sobre lá. São resultado de sua ousadia e coragem”.

 “O depoimento dela sobre violência sexual é um dos mais fortes que eu já vi e ouvi. Como nós, ela também teve dificuldade de falar sobre isso. Falar é desnudar-se e ao desnudar-se Inês entregou para a sociedade a denúncia sobre a Casa”, disse Eleonora. “Eu fui testemuha do assassinado de Luiz Eduardo Merlino e ela foi testemunha de várias mortes”, lembrou.

Inês foi militante da Polop e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Foi presa em 5 de maio de 1971 e levada para a Casa da Morte, onde ficou 96 dias sendo torturada, humilhada e estuprada. Foi a partir de seu depoimento que se tomou conhecimento da existência e da localização do centro de extermínio de Petrópolis e se reconheceu parte dos torturadores e agentes que trabalhavam no local, entre eles, o médico Amílcar Lobo. Ela também denunciou a passagem de alguns militantes desaparecidos pela Casa da Morte, como Aluísio Palhano, Carlos Alberto Soares de Freitas, Heleny Guariba, Mariano Joaquim da Silva e Paulo de Tarso Celestino.

Em seu corajoso depoimento, escrito em 1971 e entregue à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 1979, ela disse: “Espancaram-me no rosto até eu ficar desfigurada. [...] O ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se o ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros [...].”

Coragem

Durante sua intervenção, o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Paulo Sérgio Pinheiro, relatou que a CNV criou um grupo de trabalho para debater o tema da verdade e gênero e elogiou a dignidade e coragem de Inês Etienne e “todas as vozes femininas que não calam sobre tortura, assassinato e desaparecimento”.  Já Maria Rita Kehl apontou que “alguns homens, covardes, se excitam diante de um corpo submetido. A coragem das mulheres parece mais intolerável a seus algozes”, disse.

A filósofa Ivove Gebara destacou que o ódio dos torturadores contra as mulheres decorria da simples participação feminina na política. “porque estavam fugindo do espaço doméstico que a natureza nos predestinou”, lembrou. “É como se as mulheres estivessem querendo subir de categoria antropológica. A tentativa delas de querer se igualar ao macho era insuportável, despertava uma raiva irracional”, disse a teóloga. Nos centros de tortura, “os castigos ocorriam, muitas vezes, apenas por elas estarem num lugar onde não deveriam. Elas ouviam coisas como ‘puta’, ‘vai ser dona de casa’, ‘aqui não é o seu lugar’”.

Tatiana Merlino é jornalista da assessoria da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”- presidente Adriano Diogo.

Adriano Diogo©Todos os direitos reservados