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Data - 18.03.2013

Mães e guerreiras que enfrentaram à ditadura

Entrega do Prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos 2013 homenageia mulheres que lutaram pelo seu país e sobrevivência da sua família.

Em comemoração ao mês das mulheres, foi realizada nesta terça-feira(11) o Prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos das Mulheres.

Concedida pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, presidida pelo Deputado Adriano Diogo, o prêmio reconhece e valoriza o trabalho de pessoas, entidades e movimentos sociais que lutam pela defesa dos direitos humanos das mulheres e enfrentamento a violência contra as mulheres.

Este ano, foram 11 mulheres homenageadas. Suas histórias se unem a uma mesma luta: liberdade. Militantes de esquerda eram contrarias a ditadura militar. Lutaram contra o regime autoritário. Foram presas, torturadas. São mães.

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Homenageadas

Em memória, o prêmio homenageia Zuleika Alambert (1922-2012) e Marcia Yajgunovitch Mafra (1947-2011), símbolos da luta pela redemocratização do país.

Entre as homenageadas, também estão Eleonora Menicucci de Oliveira, Damaris Lucena, Ilda Martins da Silva, Izaura Silva Coqueiro, Pedrina José de Carvalho, Pedrina José de Carvalho, Clara Charf, Eunice Paiva e Ñasaindy Barret de Araújo.

A autoria do projeto é de autoria do Deputado Adriano Diogo e da Deputada Leci Brandão. Estiveram presentes no evento ods Deputados Federais José Genoino e Vicente Candido, além da Vereadora Juliana Cardoso.

Zuleika Alambert

Zuleika Alambert nasceu em Santos, Estado de São Paulo, em 23 de dezembro de 1922 e faleceu no Rio de Janeiro, em 27 de dezembro de 2012.

Aos 24 anos, Zuleika Alambert assumia na Assembleia Legislativa de SP uma cadeira de deputada estadual, eleita principalmente pelos portuários, em 1947, tornando-se a primeira mulher deputada comunista do país.

O que não durou muito. Em 1948, a jovem santista formada em ciências contábeis foi cassada. Seu partido, o PCB, fora colocado na ilegalidade. Neste breve tempo,  em que esteve no legislativo apresentou dois projetos significativos, um propondo um Abono de Natal, que seria o embrião do futuro 13º salário e outro defendendo salários iguais para mulheres e homens.

Em 1964, com o golpe militar, Zuleika refugiou-se na embaixada do México. De lá vai para Budapeste (Hungria) onde se integrou à Campanha pelo Fim da Guerra contra o Povo Vietnamita. Em 1971, exilou-se no Chile onde participou dos movimentos de defesa do Allende e seu governo. Em 1974, com a proteção da ONU – Organização das Nações Unidas, Zuleika vai para Paris, sendo uma das principais organizadoras do Comitê de Mulheres Brasileiras no Exterior.

A Deputada Leci Brandão entregou o prêmio à Deputada Telma de Souza, que levará o prêmio à Câmara Municipal de Santos, onde lá possui uma sala em sua homenagem.

Marcia Mafra

Socióloga, ex-presa política Marcia Mafra, militou na organização de esquerda Ação Libertadora Nacional (ALN), onde foi presa no início da década de 1970, onde ficou por três anos.

Uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), foi assessora da ministra Dilma, tanto no Ministério de Minas e Energia como na Casa Civil, onde fazia estudos sobre o impacto socioeconômico de grandes obras de engenharia e infraestrutura, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Sua filha ? disse ter muito orgulho de sua mãe, falecida em 2011, que destacou a importância dessas conquistas ao lado de pessoas importantes. “Ela dizia que a militância política a deixou mais inteligente, dando maior capacidade de negociação e tolerância”, afirmou sua filha.

Eleonora Menicucci

Socióloga e feminista, Eleonora Menicucci é a atual ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres.

Foi militante da organização de esquerda Partido Operário Comunista (POC). Presa em 1971, passou quase três anos na cadeia.

Como pesquisadora da Unifesp, publica regularmente artigos e estudos sobre temas críticos da condição das mulheres nos campos da saúde, violência e trabalho. Sua trajetória acadêmica é marcada por participações em conselhos e comissões e por consultorias em políticas públicas e direitos das mulheres.

Impossibilitada de participar da cerimônia por conta de sua agenda, Eleonora mandou uma carta onde agradeceu a homenagem e destacou as colegas também homenageadas. A Ministra também parabenizou os trabalhos que são realizados pela Comissão da Verdade. “Saúdo e homenageio a todas as mulheres que bravamente lutaram contra a ditadura no Brasil, sofrendo as mais brutais torturas ; aquelas que não estão mais entre nós e as que ainda sobrevivem para contar esta história tão sangrenta de nossa país”.

Sua amiga pessoal Tatau Godinho recebeu o prêmio por ela, entregue pela vereadora Juliana Cardoso. Tatau destacou a força da amiga e destacou o sofrimento de uma mãe ser presa junto a sua filha. “Ela deu sua juventude para lutar contra a repressão. A luta pela igualdade na sociedade não faz sentido se não há igualdade entre homens e mulheres”.

Tatau também lembrou a trajetória da também amiga e homenageada Beth Lobo. “Sua luta que a igualdade fosse uma causa da esquerda. A igualdade tem que ser construída todos os dias. Por um Brasil de homens e mulheres iguais. Sem uma das partes, não se constrói justiça”.

Clara Charf

Filiada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Clara Charf teve sua primeira prisão política ainda nos tempos de Getúlio Vargas. Viúva do dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) Carlos Mariguella, morto em 1969, ficou exilada por nove anos e ajudou a fundar o PT.

Hoje, Charf é membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e preside a Associação Mulheres pela Paz.

Aos XX anos e com muita disposição, ela destacou a importância da mulher na sociedade. “Sou apenas uma das muitas que lutaram pela igualdade. Esta luta não é de poucos, é de muitos. Se não for de muitos, ela não dura”.

“Ainda não deu para fazer tudo que eu queria fazer”, afirma Clara esbanjando sabedoria e simpatia. “Ninguém é perfeito, mas o desejo de lutar nos faz crescer e conquistar vitórias”.

Elzita Santa Cruz

Mãe de 10 filhos, parte de sua família foi atingido pela ditadura militar. Fernando, seu quinto filho, preso e desaparecido em 23 de fevereiro de 1974.

Desde então, começou a via-crucis de dona Elzita, a quartéis do Rio de Janeiro, Recife, de São Paulo, de cartas – sem resposta- a autoridades civis e militares. Hoje, aos 99 anos, segue, ao lado dos filhos, em busca dos restos mortais de Fernando.

Hoje morando no Recife, sua filha Rosalina, que foi presa e torturada durante o regime militar, destacou a força de vontade de sua mãe.

“As mulheres foram atingidas de diferentes foramas durante a ditadura. Minha mãe sofreu por defender seus filhos”, contou Rosalina, que destacou a luta da também homenageada Ñasandy. “Como a minha, muitas mães perguntam ‘Onde está meu filho?’, mas muitas estão também a perguntar ‘Onde está minha mãe? Onde está meu pai?’”.

Rosalina também repudiou o atentado a bomba na OAB do Rio de Janeiro, durante a instalação da Comissão da Verdade da OAB-RJ, onde o presidente é seu sobrinho, Felipe Santa Cruz, filho de Fernando Santa Cruz. “Não podemos permitir que esse caso seja outro Rio Centro”.

Ilda

Ilda Martins da Silva é viúva de Virgílio Gomes da Silva, ex-operário da indústria química e dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), torturado até a morte na Operação Bandeirantes, em 29 de setembro de 1969.

Ilda foi presa com três dos seus quatro filhos, tendo a mais nova quatro meses. Também foi torturada e ficou presa por dez meses, sendo que em quatro deles esteve incomunicável.

Perseguida após sair do Presídio Tiradentes, seguiu um ano depois para o exílio, inicialmente no Chile e depois em Cuba, de onde retornou após a formatura dos quatro filhos, em Havana.

“Essa homenagem eu dedico aos companheiros e filhos, que nos dão força para chegar aqui”, afirmou Ilda. “São eles quem merecem”.

Isaura

Viúva de Aderval Alves Coqueiro, metalúrgico, militante do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), assassinado em 1971. Isaura teve que exilar-se em Cuba com duas filhas ainda pequenas, de onde só retornou após a anistia.

Emocionada, Isaura dedicou o prêmio aos seus filhos, que ainda crianças perderam o pai e tiveram que se refugiar em outro país.

Eunice Paiva

No dia 20 de Janeiro de 1971, Eunice Paiva foi levada ao Doi-Codi/RJ junto ao seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, e sua filha Eliane, de 15 anos. Desde esse dia, Rubens Paiva nunca mais for vista.

Ambas foram interrogadas, e Eunice permaneceu doze dias incomunicável. Eliana foi libertada após 24 horas.

Vera Paiva, filha de Eunice, contou sobre a luta da mãe na pela busca da verdade e corpo do marido. “Após esse ocorrido, minha mãe buscou justiça pelo menos favorecidos. Minha mãe ingressou na faculdade de direito junto comigo para combater essas injustiças”.

Vera diz que seus pais sempre foram uma inspiração de luta. “Não podemos nos esquecer do direito dos povos indígenas, que sofreram muito na ditadura. Eles são esquecidos, massacrados e torturados até os dias de hoje”.

Pedrina

Companheira do operário Devanir José de Carvalho, dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), assassinado em abril de 1971.

Entrou para a luta armada com mais quatros irmãos, sendo que dois deles foram mortos e seus corpos, ocultados.

Pedrinha chegou a ser presa nas dependências da Operação Bandeirantes por um mês. Perseguida pela ditadura. Exilou-se com dois filhos no Chile, depois à Argentina, passou por Portugal, e retornou ao País depois da Lei de Anistia promulgada em 1979.

Ivan Seixas, coordenador dos trabalhos da Comissão da Verdade de São Paulo, entregou o prêmio a sua “comandante”. “Essas heroínas merecem nosso respeito. Apesar de uma história sofrida e conturbada, fizeram seus filhos a terem um futuro”.

“Essas mulheres são fortes para carregar e passar as bandeiras que seus maridos deixaram”, concluiu Ivan ao entregar o preço.

Emocionada, Pedrina agradeceu as palavras e dedicou o premio as companheiras que lutaram pelo país e pela sobrevivência.

Ñasandy : Folha de Soledad Barrtt e Damaris Lucena

Filha da militante paraguaia de Soledad Barrett e de José Maria Ferreira de Araújo, brasileiro, militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), nasceu em Cuba, em 1969, durante o refugio dos pais.

Seu pai foi morto durante tortura e sua mãe assassinada no chamado Massacre da Chácara São Bento, ocorrido em 1973, em Paulista, na Grande Recife.

Ñasaindy só voltou ao Brasil, junto os pais adotivos, em 1980, com 11 anos de idade, com sua mãe adotiva Damaris Lucena, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Damaris havia sido presa em 20 de fevereiro de 1970. Seu marido Antônio Raymundo de Lucena foi assassinado na frente da família e permanece desaparecido até hoje.

Barbaramente torturada, foi libertada em trocada do sequestro do cônsul japonês, Nobuo Okuchi. Exilou-se no México e, depois em Cuba, onde reconstruiu a vida.

“Eu era uma criança, mais uma criança, uma irmã para os seus filhos, uma nova filha.” Falou Ñasaindy Barrett de Araújo ao receber o prêmio por Damaris. “Eu nunca poderei deixar de dizer o quanto a amo, por ela ser quem é. Essa mulher verdadeira, batalhadora, determinada, que não abandonou o seu posto e sua militância, assumindo com total comprometimento a missão que lhe fora conferida, uma missão que, pouco a pouco e cada vez mais se tornou sua própria vida”.

Sem documento, Ñasaindy (que em tupi significa Claridade da Lua) conseguiu reconhecimento da sua paternidade apenas em 1996, aos 26 anos, com a ajuda de indenização recebida pelo reconhecimento de seus pais como “desaparecidos políticos” pela Comissão de Anistia.

Desta forma, Ñasaindy começou um processo de restabelecimento das condições necessárias para ser naturalizada brasileira e assumir o nome verdadeiro dos seus pais, já que a mesma havia sido registrada com documentos falsos para despistar os militares.

“Quando me encontrei diante de mim um dia e da minha trágica realidade, por muitos anos, primeiramente em Cuba e depois no Brasil, procurei dar sentido e forma a tudo o que me acontecia e ao que tinha acontecido de bom e de ruim. Foi muito duro, muito difícil sim”, falou Ñasaindy sobre sua história e vida na ilegalidade na infância. “Sempre tive ao meu lado pessoas maravilhosas que, às vezes, mesmo sem saber, tornaram o meu viver ainda algo necessário”.

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